11.11.10

ASSALTO À SEGURANÇA SOCIAL?
Ficção de Pierrot le fou


O edifício da Segurança Social encontrava-se cercado pelas forças de policia, as cameras dos canais televisivos amontoavam-se, quase que se encaixavam umas nas outras, os repórteres escreviam nos blocos e ajeitavam os seus penteados, preparando-se para os directos. Uma multidão rodeava a zona de acção.
O que estaria a acontecer? Seria uma cimeira sarkozysta, para o fim dos direitos sociais em Portugal? Um congresso de especuladores, patrocinado pelo BPN, pela PT ou por uma qualquer entidade oculta acabada em "berg" para conversão de dívidas privadas em dívida pública? Uma manifestação de grandes empresários a pedir mais justiça para as suas acções, maltratadas pelas pensões dos velhinhos que já não têm saúde para trabalhar? Um concerto ao vivo com Angela Merkel and the Coconuts?
Na verdade, até ao momento, ninguém sabia o que se estava a passar. Porquê tanta gente?
Acabava de chegar um autocarro cheio de negociadores e alguns psicólogos criminais.
As pessoas estavam agitadas, o patrão do único café do bairro regalava-se, ao ver sair cafés, como pães quentes, pois nunca o negócio fora tão produtivo.
Um canal sensacionalista aproveitou o momento, para preparar uma edição especial sobre aquele homem, que diariamente não vendia mais que meia dúzia de bifanas, cerca de vinte cafés, cinco a seis bagaços, mais algumas minis, que ajudavam a matar a sede e a anestesiar o desespero dos seus humildes clientes, gente de duro trabalho, que ali convivia, para passar o tempo que sobrava das suas rotineiras dedicações laborais.
Na esperança de conseguir alguma informação, por parte do potencial informador, o repórter começa a conversar com o patrão do café, lançando exagerados elogios, que numa espécie de prosa misturada com passagens de Camões, lidas de trás para a frente, elevavam ao grau de palácio histórico, a espelunca repugnante, onde com receio de contrair uma doença não classificada até então, o jornalista fingia beber o Moscatel.
"Já viu? Aquilo ali está cheio de policias!... O que será?" Pergunta ele ao dono do café, que acabava de deixar cair a cinza do seu cigarro, na sandes de presunto, que acabava de preparar para um cliente.
- Claro! Responde o patrão. Já não é a primeira vez que ele faz isto! mas esta vez, vieram as televisões e sei lá mais o quê... Ele deve estar contente!
- Ele... Ele, quem?
- O doido!
- O Doido?
- Sim, ninguém sabe o nome dele. Por estas bandas, chamamos-lhe "o doido".
- Tem problemas psicológicos?
- Só pode!... Chega ali, faz uma série de reféns e ameaça fazer explodir as instalações lá da Segurança Social.
- Mas o que reivindica ele?
- Revind... quê?
- O que pretende o homem?... O doido!
- Depende.
- Depende? De quê?
- A última vez que se fechou lá dentro, fez explodir uma bomba artesanal e rebentou com o arquivo lá dos gajos. Ri-se e: Ah ah! Essa até foi boa!
- Houve feridos?
- Não! Ninguém se aleijou. O homem é doido mas não é mau... Quer um pouco de atenção e aproveita para exigir coisas.
- Coisas?
- Sim. Sei lá o que é que ele já exigiu!... Uma vez até pediu para acabarem com as reformas monstruosas, dos políticos que ainda estão a trabalhar. Coitadinho... É doente!
- Quer dizer que não faz aquelas coisas em seu nome...
- Claro que não! Quer dizer, aproveita para pedir umas coisas para ele mas... A confusão acaba sempre da mesma maneira.
- Entram por ali adentro, imobilizam-no e detém-no?
- Não! Ele acaba sempre por entregar-se.
- Assim, sem mais nem menos?
- Não. Depende do prato, às vezes demora um pouco mais. Sabe, é que, para além de doido, ele é pobre... É um homem cheio de problemas mentais e não o deixam trabalhar. Por causa disso, não tem dinheiro para comer e passa fome.
- Disse que dependia do prato...
- Sim homem! Ele vai fazendo lá as suas exigências, e depois dos... como é que lhes chamam?
- Os negociadores?
- Esses mesmos! Depois desses... Homens de negócios lá da polícia lhe prometerem que vão cumprir as suas exigências, ele faz o pedido, eles levam-no até ele, e já está!
- O pedido?
- Sim! O prato. Um prato de comida, uma refeição! Na última vez, pediu estupeta de atum...

Pierrot le fou