9.6.10

O CANDIDATO A PRESIDENTE
E O CAMPONÊS SÁBIO


Com sede de fama e poder, o homem torna-se candidato a presidente da câmara da cidade de Santa Paciência e, para ganhar a confiança e os votos dos habitantes do concelho, decide fazer-se à estrada para visitar os seus futuros apoiantes.
No primeiro dia da tournée promocional, o ansioso candidato vê um camponês e decide parar o seu jipe, para lhe dirigir alguns elogios.

- Bom dia.
- Bom dia. Responde o camponês.
- Que belo sítio este. Como chamam os senhores, este espaço tão calmo, tão harmonioso?
- O cantinho dos bons.
- Que lindo nome.
- Foi o Ti Zerúnfio.
- Quem?
- O Ti Zerúnfio. É um homem muito inteligente, sabe um pouco de tudo.
- Deve ter estudado muito...
- Nunca foi à escola.
- Como pode ele saber um pouco de tudo, se não estudou?
- Trabalha, lê, desenvolve ideias que lhe vêm à cabeça.
- Que tipo de ideias?
- Todas as que nos ajudem a viver melhor. Temos electricidade, água, cultivamos fruta e legumes. Não nos falta nada.
- E tecnologia?
- Tec... tec quê?
- Televisão...
- Ah a caixinha do povo? Não, não temos nada disso.
- Sem telev... caixinha do povo, não veêm informação em directo, não podem seguir as telenovelas, ver filmes,... nem futebol...
- E quem disse que queremos essas coisas por cá?
- Deduzi...
- Dedu quê?
- Pensei que estivessem interessados...
- Em telenovelas?
- A televisão não passa exclusivamente telenovelas...
- Claro que não, também promove aldrabões, egoístas, políticos e outros ladrões... Nem queira saber o tratamento que damos a esse tipo de pessoas, quando aparecem por cá. Já aconteceu e não foi bonito de se ver! Aqui, não aceitamos pessoas de má fé! No cantinho dos bons, só mesmo bons!
Já agora, o que faz o senhor na vida?
- Sou vendedor de televisores...

Com a forma mais elegante possível, o candidato a presidente, assustado, afasta-se, usando uma expressão corporal desconhecida, que misturava dança medieval, Tai Chi, Butô e exageradas vénias, que dirigia ao camponês, como numa sátira barroca, destinada ao seu praticante, que se torna vítima da estranha e atrevida modalidade.

Pierrot le fou

2 comentários:

El Matador disse...

Ah Ah. Belo conto ó Pierrot, uma espécie de parábola à antiga.

Pierrot le Fou disse...

El Matador,
É uma parábola "à la Pierrot le fou". Não confundir com parabólicas. Cuidado com o cantinho dos bons e discípulos de Ti Zerúnfio. ;)