26.5.09

O Escuro (curto diálogo circunstancial)


"Ai, ai... Ai ai ai!"
...Ai? Pergunta uma voz na escuridão, naquele espaço perdido, talvez infinito.
- Sim... Ai!
- Há por aí sofrimento?
Faz-se silêncio e... e ouve-se:
- Sofrimento não! Ai ai ai ai!...
- Que tentas dizer? Porque produzes tantos sons, para tanto ou nada dizer?.. Quem se expressa de tal forma?
- Eu!
- Eu?... Posso ajudar-te?
- Sim, por favor, tenho grande medo do escuro porque nele, nada se revela, tudo é oculto e assustador... nada consigo alcançar.
- Porque vives nessa instabilidade e insegurança?
- Desde sempre fui medroso, o desconhecido merece por minha parte, exagerado respeito e incompreensão exacerbada!
- Não deve o amigo, tornar-se matéria combustível para esse seu defeito!
- Bem sei, bem sei...
- O que pensas do universo?
- Universo?... Universo... Se os versos se unissem para me proteger em tal hora, resultariam da minha criatividade, infinitas linhas de prosa benéfica e reparadora, desta insuportável fraqueza, que os presentes vulneráveis e instáveis da minha génese transportam...
- Referia-me ao universo, a imensidão... "o desconhecido"...
- Percebi.
- Essa tua fobia tem origem...
- Na escuridão!
- Na escuridão ou trevas, revela-se a interpretação e ignorância dos sábios isolados, a sua ansiedade é por si, uma considerável convicção nos seus objectivos adormecidos ou dívida pessoal para com as suas capacidades!
Faz-se silêncio e...
- Continue amigo, continue... Amigo? Amigo?!..."

Ninguém responde.

"Não me deixe aqui sozinho no escuro! Por favor!..."

O Homem Medroso ficou ali só, acompanhado da sua assustadora ansiedade, à espera...

A solidão e a ausência de luz teriam levado o Homem Medroso a comunicar com um sábio viajante invisível ou, teria o seu lado inconsciente, gerado um diálogo inibidor de seus medos, que por momentos quase iluminou uma voz reconfortante, cúmplice da sua imaginação?

Pierrot le fou