22.6.09

A Ignorância e a Cidade dos Sagrados Membros do Neologismo
(original Pierrot le fou)


A noite era bem escura, a Ignorância deambulava sozinha pela isolada Cidade dos Sagrados Membros do Neologismo, conhecidos pelos seus actos intelectuais revolucionários, tão temidos pelos conservadores da escrita antiga.
A pouca luz dos candeeiros tornava clara, a decadência das ruas dos abandonados bairros ocupados por resistentes de várias tendências e expressões literárias, que ali encontravam serenidade e isolamento necessário para desenvolver as suas teses, como se o lado físico da existência, nada significasse.

Os sábios da reconhecida comunidade, tinham aplicado um método que consistia na inter-valorização dos presentes, organizando encontros diários, onde todos os participantes apresentavam as suas ideias e reflectiam sobre as projecções dos colegas intervenientes.

Na mesma noite, a Ignorância passava em frente a uma casa, quando ouve uma voz perguntar:
"Que fazes tu por aqui?"
- Venho falar com o teu chefe.
- Aqui não há chefes! Somos todos iguais, reunimo-nos para decidir qual a função mais adequada para cada um dos membros da nossa comunidade.
- Seja... Venho mandatado pela Alta Comissão para a Estabilidade e Direitos da Comunicação Interna.
- O que nos querem esses encéfalos congelados?
- A vossa proposta foi avaliada e rejeitada.
- Outra vez? Não aceitam nem uma! E os cobardes enviam um Zé qualquer para nos anunciar as suas decisões... Qual é a sua posição lá na Comissão?
- Eu? Eu sou a Ignorância.
- Não me admira!
- Ai sim? Porquê?
- A resposta tem nome e encontra-se aqui na cidade, bem longe dos sentados que votam presente, para vetar a evolução! Se desejar aprender alguma coisa ou esclarecer as suas dúvidas, terá de forma definitiva, que atravessar a fronteira que separa o mundo do comodismo dos tecnocratas, do cenário dos infinitos actos benevolentes e construções por aplaudir!
- Sabe que não pertenço a esse meio...
- Como desejar... Já agora, poderia levar mais uma proposta, lá para a Alta Comissão?
- Qual é a palavra?
- "Politocrata"... Um adjectivo..."

E assim, demoraria mais algum tempo, a viagem de ida e volta de mais uma palavra que, depois de uma habitual, negativa e automatizada decisão dos poderosos senhores da Alta Comissão para a Estabilidade e Direitos da Comunicação Interna, viria juntar-se aos sonhadores da Cidade dos Sagrados Membros do Neologismo, adiando-se mais uma vez, a eminente Revolução das Letras.

Pierrot le fou

4 comentários:

Xico dos griséus disse...

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

Pierrot le Fou disse...

Ary dos Santos vivia as palavras que dizia...

Abraço,

Pierrot le fou

El Matador disse...

os teus diálogos são épicos.

Pierrot le Fou disse...

Amigo El Matador,

A poesia é amiga da inteligência, eu sou mau poeta Sou filho de escritora poetisa... talvez por isso, resulte das minhas composições, alguma pertinência ou verdade...
(Qualquer coisa parecida...)

Abraço ao amigo El Matador (digno membro do presente).

Pierrot le fou